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21/01/2004 12:34
O GÊNESIS E O DESTINO - A NÃO-INTERVENÇÃO DIVINA

Apenas um lembrete incial: não tenho a mínima intenção (e isso por empirismo de que é inócuo) de tentar mudar a idéia firmemente sólida dos que defendem o Criacionismo ao pé-da-letra ou a idéia do determinismo, aliás, inerentes uma à outra... Mas enxergo, na minha opinião rebatível, por trás da metáfora grandiosa de Moisés que não há antagonismo entre criação e evolução, só há má interpretação!

"E Deus viu que tudo era muito bom"...

Com esta frase, arremata Moisés, no Gênesis da Bíblia, no último período, a última das criações de Deus: o ser humano. Para as outras anteriores, no final de cada período cósmico (porque é mais que lógico que o mundo foi criado, não em 06 dias, mas em períodos cósmicos, de longa duração). Aliás, é exatamente isso que a palavra hebraica yom quer dizer "período", inapropriadamente traduzido, através dos tempos, para as línguas, em geral, no sentido de dia, o que não possui lógica em ser, pois no “quarto dia” é que as potências criaram o “sol, a lua e os planetas”, portanto não poderia haver “dias” antes deles uma vez que não existia a rotação de 24 horas do nosso planeta, criado só no “quarto dia”.

E por que para o homem é acrescido o advérbio de intensidade "muito"? Teilhard Chardin, filósofo francês da Religião, inspiradamente diz que o criação do homem é a “descontinuidade na continuidade”, ou seja, é a diferença, é o “não-automático”, é o “filho mais novo” da parábola do filho pródigo, é o que, diferente do mundo mineral, vegetal e animal irracional, pode pensar, pode decidir. Por isso é que Deus não intervém nas nossas vidas. Porque TUDO já nos foi dado. Temos um planeta capaz de suprir todas as necessidades de alimentação, vestuário e moradia para todos os seres humanos, porém, nossas omissões sociais, descasos políticos, desrespeito à Natureza, injusta distribuição de renda e atos afins, criam as mazelas e as misérias humanas. E esses mesmos criadores de tudo isso, ardilosamente invocam a “vontade de Deus” e a necessidade de “sofrimento” para justificarem essas situações. As favelas não surgem da vontade de Deus; sim, das nossas. Claro que há as tragédias naturais (secas, terremotos, furacões, enchentes etc), mas nós temos o conhecimento e as tecnologias necessárias, para enfrentarmos todos esses revezes, só que a conveniência e a covardia de alguns permitem o sofrimento de muitos...

Portanto, o que quero defender aqui é que não há essa coisa de destino traçado pra ninguém. Ninguém, aos olhos de Deus, é especial ou merecedor de graça alguma (pelo menos não os que se acham merecedores). Conforme um alerta antigo e mal ouvido: “o reino dos céus está dentro de nós”...ou seja, cabe a nós, na medidas das nossas escolhas, escolhermos aquilo que vale a pena de ser escolhido, assim não se entra em contradição com o outro alerta do mesmo autor do primeiro: “quem semeia ventos, colhe tempestades”.

Mas, dirão muitos: “ E a Escritura? E as profecias que se cumpriram? Isso não é prova cabal de que tudo já está determinado?”. Claro que não!!! O que os profetas faziam (quando faziam) era somente anteverem aquilo que aconteceria por livre escolha das pessoas envolvidas nas circunstâncias. Ou seja, as coisas não aconteceram porque foram escritas; Elas foram escritas porque iriam acontecer, só que este “acontecer” é resultado da livre escolha humana. Porque se assim não fosse, não teríamos, nós a sociedade, condições morais de punir um só marginal ou assassino uma vez que ele estaria apenas cumprindo o “seu destino” ...

Como já disse em outro texto, aqui mesmo neste espaço, não partilho da idéia de um Deus pessoal, antropomorfo, com características humanas. Mas acredito no Grande Pensamento e na Grande Ordem, por mais absurdo que pareça, e principalmente por isso!

Este assunto não pára por aqui...fiquem à vontade...

enviada por Alberto Sales






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